- Rita Avellar
- 30 de jul.
Uma das histórias que a minha mãe sempre gostou de me contar e relembrar é da minha cisma em usar certos acessórios ou roupas quando criança, sem explicação ou inspiração em nada ou ninguém. Eu simplesmente cismava e não me importava com olhares alheios ou comentários sobre ser estranho ou cafona. A mais notável história foi a da gravatinha.

Lá pelos 7 anos, eu cismei em usar gravatinhas borboleta. Tinha uma principal, de tecido roxo, e uma outra de plástico que usava menos. Cheguei a usar até uma gravata de crochê lilás - sim, de crochê! Mas a que eu mais gostava, e achava cool, era a gravatinha borboleta de tecido na cor roxa. Combinava com os mais diferentes looks — o importante era o acessório estar ali. Era meu, e ninguém mais tinha ou usava algo igual. Lembro de diversas vezes em que íamos sair em família e minha mãe perguntava: “Vai de gravata mesmo?” E eu não tinha dúvida: sim. Vergonha alheia, talvez, para uma mãe. Mas eu tinha a certeza de que estava abafando.
Nunca levei isso para a terapia, mas seria interessante um dia colocar esse tema em pauta. Recentemente, fazendo um exercício de estratégia de marketing, tivemos que analisar como éramos quando criança — nossas aspirações, o que queríamos ser quando crescer, características marcantes e outros traços. E lá veio ela, com toda a sua força fashion: a gravatinha roxa.
Ao analisar esse símbolo tão forte para mim, fui percebendo que, desde cedo, carregava esse sentimento de não pertencimento a um grupo específico ou de não me encaixar em apenas uma “categoria”. E que isso, na infância, não trazia angústia ou questionamentos — era simplesmente viver minha identidade em plenitude. Ter a liberdade de ser quem eu era, mesmo com olhares de reprovação, e seguir em frente.

Isso, mais tarde, foi se transformando em estar um pouco à frente do tempo, às vezes falando mais do que devia ou compartilhando mais do que era “esperado”. Também tive, na vida adulta, momentos em que escondi esse meu lado f*da-se-o-que-os-outros-vão-pensar — me anulando ou me adaptando demais. Mas é claro que, quando chegava a hora de escrever um texto autoral, o tema do pertencimento, da aceitação e da valorização sempre aparecia no meu trabalho.
Desde o primeiro tratamento de câncer, em 2022, esse assunto veio com força total. E agora, nesta segunda leva (que já foi, bye-bye, câncer!), explodiu de vez. A gravatinha roxa virou o meu símbolo interno, pra me lembrar de ser quem eu sou — e não ter vergonha, nem a necessidade (ou seja lá o que for) de não vivenciar isso na sua mais pura essência.
Continuo acreditando na importância da maleabilidade para se adaptar às circunstâncias. Afinal, viver o seu eu verdadeiro é bem diferente de teimosia ou de querer chocar quem é diferente de você. Com a maturidade, a gente entende isso. Porém, a adaptação constante — à vida social, profissional, familiar — tem seu limite. E ele aparece quando você volta à sua infância e se pergunta: onde foi parar aquela criança?
Eu já achei a minha gravatinha roxa de volta. E você?